Recuperação da construção fica para 2019

Recuperação da construção fica para 2019

“O cenário econômico vai se deteriorar bastante. As reformas serão adiadas. A única certeza é que a indústria da construção vai sofrer mais tempo do que precisava.” Esta foi a visão transmitida pelo vice-presidente de Economia, Eduardo Zaidan, na Reunião de Conjuntura do SindusCon-SP, em 23 de maio.

Segundo ele, embora setores como agropecuária, educação e saúde possam demandar algum investimento, a perspectiva para a atividade da construção é de não melhorar nos próximos 18 meses. “Com o cenário político incerto, 2017 não mais será um ano de transição para a construção nem 2018 um ano de recuperação, como esperávamos anteriormente”, afirmou.

Ao analisar a conjuntura, o economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), Robson Gonçalves, prognosticou que, “com o consumidor cauteloso, não haverá crescimento do PIB e da atividade econômica da construção em 2017”. Para ele, é provável uma elevação do câmbio, porém nada explosiva e sem afetar significativamente a inflação “porque a recessão é muito grave”.

Na expectativa do economista, uma recuperação mais rápida aconteceria se o Banco Central baixasse mais a taxa de juros, irrigando o mercado de crédito e favorecendo o consumo. “No atual cenário, esta não seria uma medida populista. Beneficiaria as contas públicas aliviando o déficit fiscal, atrairia menos capital estrangeiro especulativo e estimularia a economia”.

Expectativas afetadas

Tanto ele como a coordenadora de Projetos da Construção da FGV/Ibre, Ana Maria Castelo, concordaram em que a previsão de crescimento do PIB da construção em 0,5% em 2017 não deverá se confirmar. “A crise política, o adiamento dos lançamentos de imóveis e das novas concessões de infraestrutura, a incapacidade do governo de impulsionar com vigor o PAC e o Programa Minha Casa, Minha Vida, tudo isso afetou as expectativas, como as próximas sondagens irão demonstrar. A construção deverá fechar 2017 no negativo”, comentou a economista.

Ana Maria, em sua apresentação, mostrou os últimos dados do setor, fechados antes do agravamento da crise política. De acordo com a Sondagem da Construção da FGV/Ibre, voltou a aumentar o número de empresas do setor que manifestaram a intenção de demitir nos próximos três meses.

O nível de emprego do setor no primeiro trimestre apresentou queda de 14,02% ante o mesmo período do ano anterior. Com isso, ao final de março o setor empregava 2,48 milhões de pessoas, número que deverá chegar aos 2,17 milhões em dezembro, de acordo com a projeção da FGV/Ibre.

“Embora o saldo negativo do emprego no primeiro trimestre tenha sido 50% menor que o do mesmo período de 2016, será impossível chegarmos a um resultado positivo neste ano. As expectativas serão afetadas, tudo será postergado em função da crise política”, afirmou Ana Maria.

De volta ao passado

Robson Gonçalves lembrou três momentos em que a crise política provocou ou acentuou a crise econômica: a moratória mineira decretada pelo governador Itamar Franco em 1999 que explodiu a política cambial, âncora do real, no início do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso; a eleição e o início do primeiro mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva em 2003; e o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2015/2016.

“Hoje estamos vivendo um momento semelhante, porém o teto de gastos públicos inibe uma saída populista, a inflação está baixa e o clima internacional, embora tenso, também apresenta taxas de juros reduzidas. O Brasil vinha com uma sinalização importante para os investidores internacionais, com as concessões de aeroportos bem sucedidas. A economia convalescia lentamente, mas agora se espera uma nova queda”, disse Gonçalves.

Para o economista, a atual crise política se assemelha ao de um mamute ferido pelos humanos na Pré-História, que tardava dias até morrer. “Enquanto isso, os homens seguiam o anima e a fome aumentava.”

Embora a torcida do mercado seja por uma transição rápida do poder central, o que possibilitaria uma melhora econômica em 2018, o cenário mais provável é outro, ponderou Zaidan. “O futuro político está em aberto, o presidente da República tende a permanecer no cargo até o último minuto, assim como provavelmente o farão os que estão em sua linha sucessória, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado”, observou o vice-presidente.



Autor: Rafael Marco, para SindusCon-SP, em 23/05/2017.

Imagem: Divulgação.